d’Arte, Paixão
&
Poesia
Num dos primeiros escritos da sua
juventude (1796/1797), Hegel afirmou que
«(...) já não haverá nenhuma filosofia,
nenhuma história, apenas a arte poética sobreviverá a todas as restantes
ciências e artes». Apesar do risco da afirmação, no contexto e no âmbito
da distância temporal, esta intuição profética do jovem Hegel, não é ainda
realizável, não está em consonância com estes nossos tempos de
perplexidades, confusão geral, falta de sentido e “algum” vazio espiritual;
contudo, há algumas boas pistas, determinados trilhos que nos permitem
afirmar que a reconciliação do homem e do universo pela criatividade e pelo
artístico, está sendo preparada e que as próximas gerações irão assistir a
um regresso - desejado e necessário - à Arte por
excelência (uma espécie de deificação do Homem). Deixemo-nos de artimanhas
progressistas e de fixações cibernéticas, tecnológicas e afins; a
humanidade, em toda a sua essência, plenitude e dignidade, só continuará
sendo possível pela Arte.
As “aventuras” criativas
(uma aventura é inicialmente uma surpresa e depois uma memória) serão
património mítico/cultural e farão parte do imaginário de um povo
intelectualmente ousado, se forem dignamente vividas.
Viver-em-Arte (criando, fruindo e partilhando Arte) é fundir-se no
Todo-Absoluto, é fazer pontes com os materiais
estéticos da alma, reconciliando o apolíneo
e o dionisíaco da Vida. Toda a Arte liberta e aproxima do
essencial... A Eternidade não é, decerto, uma doença das ideias,
ela revela-se na Arte verdadeira - a Arte
despretensiosa, autêntica porque espontânea mas insatisfeita, sentida e
amadurecida; dela brotará “infalivelmente” uma significativa revolução
cultural e espiritual. O efémero, o passageiro, o banal, é próprio da
radicalização dos opostos, é peculiar dos que
desistem de aprofundar e descobrir poeticamente os
pequenos-grandes enigmas da sua criatividade, muitas vezes adormecida
pelo embalar conceptual e conservador das ideias feitas, fáceis e
indiferenciadas. (...)
(...) A
insatisfação-permanente deve ser o critério
máximo. Rasgar deve ser o gesto mais natural de um escritor, de um poeta.
Contudo, escrevam... O que está dito e “registado” ficará sempre aquém do
muito que falta por dizer. Temos todos a responsabilidade quotidiana de
des-construir para construir a Vida
- esse mistério tão rico de contradições e tão
salutar de diferenças. Nem que seja apenas uma intenção, um sentimento, uma
palavra ou um poema que se destaque (...) -
valerá sempre a pena Dizer ao mesmo tempo que se procura coerência,
sentido e autenticidade - alguém, poderá fazer disso que se diz e
vive, a motivação e o ânimo para uma reveladora e interessante caminhada
espiritual. «O caminho faz-se caminhando» e o escritor, o poeta,
faz-se escrevendo, sentindo, amando, conquistando o Impossível a fim da
máxima espiritualidade. Se chegares ao fim de uma caminhada, à beira de um
abismo ou às proximidades de uma barreira, não fiques lá apenas a contemplar
as aporias do mundo e a olhar os trilhos já por outros construídos e
palmilhados - não deixes de usar o sonho, a
vontade e a imaginação e continua a caminhada até ao fim, ultrapassando os
obstáculos com os meios próprios da tua criatividade. Se te perderes na
selva do mundo, faz mais um caminho... Se for um caminho bom e acessível,
mais cedo ou mais tarde, muitos por lá irão passar.
in
UM BAILADO NO CENTRO DA ALMA,
Editorial Minerva, Lisboa, 2002
Eu, O Ser
E A Dúvida
O quarto é uma selva de neurose. É
ofegante a permanência, é persistente o desejo, vontade tão própria de
inovação.
Uma
porta e uma janela são a novidade do cativeiro. Tudo se conhece; um conhecer
terrível e espantado que se dilui em interrogação.
Diz-me, ar perplexo de
mundo, onde está a fuga? Tu, visitante assíduo e perspicaz que vagueias por
este meu Inferno. Chega-te à cama minha universal, repouso dos sonhos que
sugam o meu inquieto pensamento. Chega-te cá, meu perdido dualismo, que
reflectes sem saber quando e porquê, que divagas viajando na essência
abstracta e pura de um Não-Ser das coisas e
não-coisas.
Não te
rias de mim, vida repouso de deuses-demónios;
não esperes que eu tombe a teus pés, imagem talhada de Incerteza.
Mata-me só hoje, nobre
tempestade de silêncio; afaga os gritos escaldantes de um ninguém que não é
daqui, que viaja sem destino e com todos os destinos, que...
Recôndito raio de sol que
penetras com esforço essa janela amedrontada, vem um pouco mais a mim,
aquece, ilumina este meu Não-Ser, dúvida agitada
e agitante de ser Ser sem saber o que é Ser e
porque é Ser na imensa frustração que é ser Ser.
Vem tu
também, imagem do meu último sonho que será sempre o primeiro; vem e
envolve-me na pleura do teu fascínio, tu que tens o poder da deusa profana
que me encanta, que me beija o espírito, que me adormece em divino ócio.
in
UM BAILADO NO CENTRO DA ALMA,
Editorial Minerva, Lisboa, 2002