Ângelo
Rodrigues (AR) em Um bailado no centro da Alma ultima em múltiplos
registos a condição humana, o outro e a outridade (o lado
obscuro da diferença). A outridade sem a diferença sexual é a máscara
da mesmidade (p. 23, § 30). Filósofo de gracioso recorte estético em que a
dimensão da fala (é fálica) vive na escrita um confronto provocatório de
relação de si a Deus dentro dum teísmo ainda assim clássico, com a força do
entusiasmo (p. 13 §§ 40, 41). Inquire AR como poderíamos de outra forma
manifestar a diferença vestigial de eus através da obsessão pela forma e
corpo. Uma percepção onanista do escrito como tálamo das palavras.
A figura feminina (v.g. p. 23)
serve de paradigma e está muitas vezes presente na referência do outro lado
do verbo. A idealidade de género pára aí, no sintoma da descoberta da
palavra significante. Da palavra fertilizante como falha decisiva. Uma
descoberta tardia da face do outro que pode abrir a portada da genuinidade. A
dupla fala, a dupla falha, o falo e a falha. O que falha na relação erótica
que este livro quer preencher? O cuidado da carícia, o abandono de si à
conceptualização dos registos infindos do discurso metabólico entre a
entre-vista e o olhar a direito para onde convém, a mistificação do olho
como centro da alma e a simbolização do número como identidade humana sem
face específica. Outra metafísica como se a metafísica pudesse ser outra, isso
significa assistir a um encantamento do que se simula como lugar sem lugar: o
centro de coisa nenhuma (v.g. pp. 24, 25, §§ 39-40). Para terminar, AR
expurga um vestígio cujo significado é não fazer aparecer coisa alguma
(pp.39-40). Daí a sua relação fecunda ao tempo. Permite, particularmente,
esboçar sentidos múltiplos pela temporalidade através da forma narrativa do
corpo da escrita. Narrativa do espaço das possibilidades da utopia e de
humanismo (p. 70), da estima ou do dizer bem a obscenidade: ou melhor ser
obsceno sem cair da cena, ou do sofá, onde tudo parece líquido em se dizer.
Uma recitação que corre através duma distância temporal, uma narrativa fora
das possibilidades do espaço, um não dito: interdito. O centro sem centro: a
alma. Desta forma o bailado no centro da alma é a matricização de uma
coisa estranhíssima como coisa: a identidade duma carícia que se diz. Uma
intuição líquida e interior como forma crucial de meditação: uma marca de
conexão que ajuda a constituir uma narrativa da identidade como paradigma
instável e repetitivo, sucessivo, dadaísta (p.27-29), para além das
vicissitudes fálicas e egóides da própria vida. Intenso e proibido. Silencioso
(p.43). Inculpável (p.25, §44).
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