JORNAL POETAS & TROVADORES,

 Abril/Junho de 2003. Recensão da obra Um bailado no centro da Alma

de Ângelo Rodrigues, Editorial Minerva, Lisboa, 2002,

por Mário André Veríssimo, Investigador,crítico literário  e docente universitário

 

A fala líquida

Ângelo Rodrigues (AR) em Um bailado no centro da Alma ultima em múltiplos registos a condição humana, o outro e a outridade (o lado obscuro da diferença). A outridade sem a diferença sexual é a máscara da mesmidade (p. 23, § 30). Filósofo de gracioso recorte estético em que a dimensão da fala (é fálica) vive na escrita um confronto provocatório de relação de si a Deus dentro dum teísmo ainda assim clássico, com a força do entusiasmo (p. 13 §§ 40, 41). Inquire AR como poderíamos de outra forma manifestar a diferença vestigial de eus através da obsessão pela forma e corpo. Uma percepção onanista do escrito como tálamo das palavras.

A figura feminina (v.g. p. 23) serve de pa­radigma e está muitas vezes presente na refe­rência do outro lado do verbo. A idealidade de género pára aí, no sintoma da descoberta da palavra significante. Da palavra fertilizante como falha decisiva. Uma descoberta tardia da face do outro que pode abrir a portada da genuinidade. A dupla fala, a dupla falha, o falo e a falha. O que falha na relação erótica que este livro quer preencher? O cuida­do da carícia, o abandono de si à conceptuali­zação dos registos infindos do discurso meta­bólico entre a entre-vista e o olhar a direito para onde convém, a mistificação do olho como cen­tro da alma e a simbolização do número como identidade humana sem face específica. Outra metafísica como se a metafísica pudesse ser outra, isso significa assistir a um encantamento do que se simula como lugar sem lugar: o cen­tro de coisa nenhuma (v.g. pp. 24, 25, §§ 39-40). Para terminar, AR expurga um vestígio cujo sig­nificado é não fazer aparecer coisa alguma (pp.39-40). Daí a sua relação fecunda ao tempo. Permite, particularmente, esboçar sentidos múl­tiplos pela temporalidade através da forma nar­rativa do corpo da escrita. Narrativa do espaço das possibilidades da utopia e de humanismo (p. 70), da estima ou do dizer bem a obscenida­de: ou melhor ser obsceno sem cair da cena, ou do sofá, onde tudo parece líquido em se dizer. Uma recitação que corre através duma distân­cia temporal, uma narrativa fora das possibili­dades do espaço, um não dito: interdito. O cen­tro sem centro: a alma. Desta forma o bailado no centro da alma é a matricização de uma coi­sa estranhíssima como coisa: a identidade duma carícia que se diz. Uma intuição líquida e inte­rior como forma crucial de meditação: uma marca de conexão que ajuda a constituir uma narrativa da identidade como paradigma instá­vel e repetitivo, sucessivo, dadaísta (p.27-29), para além das vicissitudes fálicas e egóides da própria vida. Intenso e proibido. Silencioso (p.43). Inculpável (p.25, §44).


 

home

 

topo