O poeta legitimou o seu privilégio de provocar o impossível

  Glissant

 

Poesia

EXOTERICA-MENTE

 

Há qualquer coisa de esfinge em tudo isto...

Se espera com angústia que dói

e se finge a sobrevivência temporal

desta encarnação

jogando a roleta das personificações elementares

pois tarda

o apóstolo da luminescência,

aquele que é  também o portador

das divinas vibrações,

o oculto

o encoberto

o envolvido

o silencioso

o secreto.

Só os destruidores-de-barreiras saberão

a hora cósmica da sua chegada;

eles estarão à espera, protegidos

de força psíquica, a única que suporta a

irradiação do sagrado.

Virá carregado de Ambrósia e sei

que muito poucos dela comerão.

Após o banquete não regressará só.

 


 

 ORAÇÃO BUCÓLICA

 

 Possuir

 as águas dos regatos,

 as flores dos campos...

 sublimar a todos os céus

 uma oração bucólica.

 

 Saborear

 incensos e cheiros silvestres,

 a luz do sol namorando a manhã,

 o gnomo do bosque a sorrir só para mim...   

 sublimar a todos os céus

 uma oração bucólica.

 

 Acariciar

 os frutos das árvores de ninguém,

 a lã das ovelhas de todos os rebanhos do Homem,

 as penas dos pássaros que sabem de alguma Liberdade...

 sublimar a todos os céus

 uma oração bucólica.

 

 Quedar-nos-emos

 ao bucolismo do mundo.

 Queremos reencarnar na matéria desta oração:

 no possuir, no saborear, no acariciar.

 


 

PERFUME

 

Vagueio

clandestino

pelas sombras

do desejo

em busca

da Última-barreira

que está algures

para além

dos precipícios olfactivos da Rosa.

 

Descanso.

Sento-me em cima

da felicidade

de um pássaro bizarro;

estou alto e tenho medo,

medo de não permanecer

eterna-mente alto.

 

Descarrego do olhar

a luz de todas as manhãs do mundo.

Encosto a Alma

à cor  azul do céu e do mar;

fecho sono-lenta-mente os olhos...

actuam em mim,

como que por encanto,

mil sentidos virgens.

Consigo cheirar

o perfume intenso,

orgástico e arrebatador

da Rosa-Esotérica.

 

Sei agora

que estou perto da

Última-Barreira.


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