Três poemas do recital

 

DA MÚSICA DAS PALAVRAS

 


 

Oração Bucólica

 

Possuir

as águas dos regatos,

as flores dos campos...

sublimar a todos os céus

uma oração bucólica.

 

Saborear

incensos e cheiros silvestres,

a luz do sol namorando a manhã,

o gnomo do bosque a sorrir só para mim...  

sublimar a todos os céus

uma oração bucólica.

 

Acariciar

os frutos das árvores de ninguém,

a lã das ovelhas de todos os rebanhos do Homem,

as penas dos pássaros que sabem de alguma Liberdade...

sublimar a todos os céus

uma oração bucólica.

 

Quedar-nos-emos ao bucolismo do mundo.

Queremos reencarnar na matéria desta oração:

no possuir, no saborear, no acariciar.

 

Ângelo Rodrigues

in Um bailado no centro da Alma

Editorial Minerva, Lisboa, 2002

 


De Tarde

 Naquele «pic-nic» de burguesas,

Houve uma coisa simplesmente bela,

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.

 

Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão-de-bico

Um ramalhete rubro de papoulas.

 

Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, inda o sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão de ló molhado em malvasia.

 

Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas.

 

Cesário Verde

in O Livro de Cesário Verde, 1887

 


 

Um pedaço de Uni-verso

  

Esta quietude de solidão

afaga terrivelmente

Os meus hesitados sentidos.

Paira no ar algo perturbante.

Será que incha a angústia velha?

Sinto agora e só

o reumático cortante

da revolta cansada.

Anseio a profilaxia,

uma coisa nova de mais ser e sentido.

 

Existir e pensar;

eis a nossa simplória condição.

Avarentos do que há-de vir,

suportamos a nossa existência

em nefandas - esperançadas

                      interrogações.

Quem será por nós,

quem?

Ainda não desvanecemos;

ainda nos corre nas veias

um sangue de desejo feito grito.

Quem é por nós

é quem insaciavelmente grita.

Quem grita diz: estou aqui,

sou (somos) um pedaço de Universo!

 

Ângelo Rodrigues

in Da Ressurreição do Espanto

1998, Editorial Minerva, Lisboa

 


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