JORNAL LETRAS & LETRAS

 2 de Janeiro de 1991, excerto do artigo de página e meia

- com fotografias, poemas e desenho - sobre o livro

EU O SER E A DÚVIDA pela jornalista e

crítica-literária Maria Manuela Dantas

CRÍTICA

Desassossego poderia ser a palavra escolhida para traduzir a sensação provocada pela leitura: de «Eu, o Ser e a Dúvida», de Ângelo Rodrigues, um poeta da nova geração que revela uma forma de Ser e Estar, presente. Um livro actual que retrata uma realidade que ultrapassa a vivência do próprio Eu. Centrada numa primeira pessoa, a poesia de Ângelo Rodrigues expande-se até Nós, em poemas como «Um pedaço de Universo» ou «Há dentro de nós», que reflectem sobre a «nossa simplória condição de existir e pensar» ou «uma frustração de Ser» que «há dentro de nós».

 

«Eu, o Ser e a Dúvida», condensa no próprio título as linhas de força desta poesia, que poderíamos apelidar de jovem. Uma juventude para quem «Revolta», «Raiva», «tédio», «amargura», «angústia», são palavras-chave de uma existência marcada pela insatisfação e que são usadas pelo poeta para traduzir um «não-estar e mau-estar» Com elas, o poeta agride o institucionalizado manifestando o seu inconformismo face a «um existir», considerado como «o princípio de um ir-sendo», tentando libertar-se da «teia de insatisfação» que o aprisiona.

 

Combativa, usa da violência, não só nas ideias mas também nas palavras que surpreendem e atingem o leitor mais incauto, nomeada­mente em poemas como «O divagar da noite alta» e «Aquela mulher que eu vi passar».

      

Mas, se a maior parte dos poemas reflectem um «eu angustiado, dissociado dum tempo e dum espaço, «Saí à noite», destaca-se, não só pelo uso do pretérito perfeito mas também porque revela um sujeito poético diferente. Calmo, o «eu» encontra-se na noite, noite que «é beleza, Maravilha, SOLUÇÃO».

 

Poderemos dizer, para finalizar, que estamos perante uma obra nova, arrojada, que abala o convencional e que reflecte o sentir de um presente inserido num processo de mudança, que se procura a todos os níveis. Uma obra que merece não só uma leitura, mas também uma reflexão.

 


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