RESSOAM
AINDA ECOS DE FÉRIAS, mas é já a campainha das escolas que atrai os meus
sentidos. E, numa feliz associação de ideais, qual saliva de cão pavloviano em
previsão de tenro bife, espraio na minha visão intimista o fresco de Rafael
Sanzio denominado "A Escola de Atenas" (1509). São maravilhosos aqueles quase
oito metros de largura que no Palácio do Vaticano deslumbram o nosso olhar.
Trata-se de uma das mais bem conseguidas pinturas de um dos maiores mestres de
sempre, a cor, a proporção, a arquitectura do desenho, os ornamentos, tudo
valida o nosso encantamento pela Arte. Mas há mais. E nesse "mais" me centro.
A Escola de Atenas é um
clássico intemporal. Rafael usa por motivo a escola fundada por Platão, no
século IV a.C., na bem aventurada Atenas. No espaço cénico distribui figuras
que se relacionam com temáticas fundamentais do debate científico filosófico:
a Astronomia, a Geometria, a Aritmética… No centro, como árbitros desta
discussão alargada, coloca Platão (que aponta o céu) e Aristóteles (que aponta
a terra), numa dualidade complementar profícua: a causa e a consequência, a
dedução e a indução, a teoria e a prática, o idealismo e o pragmatismo.
Atingir a verdade pelo uso da
razão, seria o
lema apropriado para este conjunto a que Rafael presta homenagem. As figuras,
os cientistas, os pensadores, não têm um ar solene, não desenham uma pose,
antes conversam, juntam-se em grupos, discutem animadamente, de pé, pelo chão,
sentados. Veja-se Pitágoras, "o pai dos números", no canto inferior esquerdo,
escreve e com que atenção o seguem! Ou o geómetra Euclides, no canto inferior
direito, o chão lhe serve de sustento a um compasso e a uma explicação
urgente. Por vezes, uma das figuras surge isolada. Mas não é a solidão que a
move mas a ânsia de reflexão para mais saber, como é o caso de Heraclito, de
olhos baixos e cotovelo apoiado (nenhum homem, pode atravessar o mesmo rio
duas vezes - concluiu ele porque nem o homem nem o rio serão os
mesmos), ou de Diógenes cujo corpo magro e quase nu estendido pelos
degraus é bem o espelho da rejeição do luxo.
São muitas as figuras que
compõem o fresco, de uma Escola se trata... Mas não se atropelam, não sufocam,
o espaço não está sobrecarregado, pelo contrário, respira. Há lugar para todos
- todos têm o seu lugar, todos contribuem. Claro que há mestres e discípulos,
é visível o respeito mas não a vassalagem, a estima mas não o culto. Não há
séquitos, mas movimento, actuação, discussão e entusiasmo.
À Ciência e à Filosofia
juntam-se as estátuas de Apolo (à esquerda) e de Minerva (à direita) como
símbolos das Artes Liberais; presentes estão também figuras que simbolizam a
Gramática, a Música, a Retórica, a Dialéctica, a Pintura, a Arquitectura e
muitas outras. A Escola de Atenas é uma escola sábia, multi e
interdisciplinar.
A Escola de Atenas é a escola dos meus sonhos...
E a dos sonhos de Rafael:
Platão foi representado à imagem de Leonardo da Vinci, Heraclitus à de Miguel
Ângelo, Euclides é Bramante... e Rafael, irresistivelmente, também lá está.
O fresco obteve imenso
sucesso assim que foi exposto ao público nos primórdios do século XVI. Pela
beleza e pela temática. Desde daí, gerações e gerações de visitantes têm vindo
a expressar a sua admiração incondicional.
Este símbolo do conhecimento
e da comunicação do conhecimento idealizado por Rafael, podia muito bem ser,
para quem pode e manda, uma fonte inspiradora de bem conceber a Escola.
RAQUEL GONÇALVES-MAIA
in JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias,
nº 859, de 3 a 16 de Setembro de 2003
Este artigo foi aqui
colocado com a autorização expressa da autora a quem agradecemos.