AVULSAS IMPRESSÕES
Texto para o catálogo
de uma exposição da artista plástica Emília
Gomes
1. Pela
manhã,
e antes de escre-ver este singelo e dispensável comentário, olhei –
demoradamente - com os olhos da Alma, dois quadros da Emília Gomes; a
sensação que tive, foi a de entrar num uni-verso poético e onírico de
Beleza, Amor, Luz e Paz (Oikeíosis). Com Arte, a vida é possível e
desejável.
2. Pela
tarde,
depois de olhar fotografias de quadros a integrar a exposição, eis que me
surge: porquê esta pintura? É decerto uma pergunta com uma resposta ao mesmo
tempo tão óbvia quanto extremamente complexa e incerta. Há, contudo, três
certezas em toda a verdadeira Arte: a contradição, o inconformismo e a
incerteza. É da luta dos opostos que sai o novo e o diferente como nos
ensina todos os dias a Vida. É urgente vi-ver des-alma-damente, é preciso
imaginação, talento, experiências, fruições, êxtases, loucuras... é preciso
saber olhar e ver este mundo e os outros com paixão e diferença-quotidiana
para re-inventar a Beleza dos dias e assim ser possível suportar e
tranquilizar as nossas vidas tão carentes e tão descuidadas de essencial -
é também isto que nos leva à fruição desta pintura tão sui generis.
Uma resposta possível estará na busca do seu próprio graal, na
inquietude, no desejo de mudança que dá sentido à existência, na nobre e tão
necessária insatisfação que nos permite desbravar e aventurar em novos
mundos. Parafraseando Pessoa, a Vida não basta, necessitamos da Arte como
pão para a boca. Comamos já esta pintura! A Alma agradece.
3. Pelo
crepúsculo,
contemplo a paisagem “luminante” através da janela do meu espaço mais íntimo
e nesse ser-e-estar, sinto os quadros da minha amiga Emília como janelas
mágicas que se abrem para um prometido mundo de encantamentos. Falamos de
uma arte-maior, plena de poeticidade, qualquer coisa de enigmático e de
sublime que fica algures entre o imanente e o transcendente. Fazemos e
reiteramos aqui – com toda a propriedade e aquém do justo e do merecido - a
apologia desta pintura de mistérios que nos libertam, qual kathársis
(purificadora) que nos permite uma aproximação à indefectível doçura dos
deuses. É uma pintura indelével, profunda, marcante, que embriaga... Beleza,
luz, sonho, movimento, forma, aventura-da-cor, gesto-de-ternura, paixão,
alquimia, eternidade, doçura, asas... tantas palavras aparentemente
interessantes para ajudarem à fruição e ao sentido da pintura da Emília;
contudo, revelam-se pobres, inexactas, patéticas, ridículas, perante tão
grandioso Uni-verso.
4.
Respirando
o enigma da
noite,
vem-me à mente o que Nietzsche nos ensinou: que o aborrecimento e o
conformismo do mundo serão superados pela vivência e pela fruição da Arte.
Obrigado Emília por me ter docemente perturbado.
Ângelo Rodrigues
Lisboa, 23 de Agosto de 2002